Imigração

Pelotas no foco de indígenas venezuelanos

Imigrantes acabam passando por dificuldades e dependem de esmolas e doações para sobreviver

Jô Folha -

"Não tínhamos comida, roupas, auxílio na saúde, era muito difícil. O governo não ajudava em nada". Esse é o relato de Julimar Ribeiro, 23, integrante de um grupo de indígenas venezuelanos que está há uma semana em Pelotas acampado na praça Coronel Pedro Osório. Ao todo, seis adultos e duas crianças com idades entre três e cinco anos dependem da ajuda dos pelotenses para sobreviver.

Segundo Julimar, desde que chegaram à cidade ainda não receberam apoio dos órgãos públicos responsáveis. Ela conta que pessoas chegaram a indicar a procura por estadia em um abrigo, mas por ser um local coletivo que também acolhe dependentes químicos, recusaram a oferta, permanecendo na praça. "Necessitamos de ajuda dos moradores de Pelotas. Nós não podemos permanecer dormindo aqui, nós precisamos de uma casa", pede Florência Quevedo, 50, também indígena do grupo.

Em diversos pontos pelo centro da cidade, através de placas, eles pedem ajuda com o objetivo de arrecadar os recursos necessários para alugar um imóvel que abrigue a todos. O grupo fabrica ainda colares e peças artesanais em miçanga e outros materiais, mas devido à falta da matéria-prima e por não ter dinheiro para comprá-la, a produção precisou ser interrompida, dependendo exclusivamente de esmola e doações. O desejo dos indígenas é se estabilizar em Pelotas onde devem permanecer entre cinco e seis meses.

Vendo as dificuldades do grupo, Sérgio Correia, 57, resolveu ajudar como pode, levando almoço para eles. O jornalista conta que já havia notado a presença dos imigrantes através das características típicas e também das placas. Ao ver o estado de carência resolveu ajudar. "Meu interior cobrou que eu ajudasse. Acho que a comunidade de Pelotas tem que acolher eles, porque o inverno vai chegar e eles estão aqui. Tem a carência de alimento e de um teto. Eu consegui ajudar hoje, mas é só uma refeição, tem as outras", lamenta.

Ajuda municipal

Em contato com a reportagem do Diário Popular, o secretário de Assistência Social, José Olavo Passos, informou que tinha acabado de tomar conhecimento da situação e que uma equipe da pasta iria ao encontro do grupo. Segundo ele, essa é a terceira turma de pessoas no período de um mês com a mesma nacionalidade que chega à cidade. O primeiro grupo recusou o atendimento oferecido pela secretaria e conseguiu se instalar na cidade com recursos próprios. Já outro utilizou os serviços da Casa de Passagem por um tempo, até alugar um imóvel no bairro Navegantes.

Passos explica que, após a chegada de casos como esses, não é julgada ou analisada a situação dos imigrantes, se estão no país de forma legal ou não, mas que é oferecida ajuda da mesma forma. "Todos aqueles que se encontram em vulnerabilidade ou precisam de assistência, a secretaria faz o acolhimento e encaminha para os serviços necessários", assegura o secretário.

O município oferece a Casa de Passagem na qual após um cadastro é disponibilizado banho, local para dormir e alimentação. Já durante o dia, os que precisam podem buscar a refeição no Centro Pop e no Restaurante Popular. Em todos os locais, sempre é oferecida assistência social e atendimento psicológico.

Pesquisas sobre o tema

Desde 2013, o Grupo de Estudos em Política Migratória da Universidade Católica de Pelotas (Gemigra/UCPel) desenvolve pesquisas sobre a situação de imigrantes e refugiados na cidade. Entre eles está um estudo relacionado a linguística, já que com os idiomas diferentes, acabam tendo dificuldades na comunicação, seja na hora de receber atendimento médico, procurar emprego ou pedir ajuda. Para amenizar essas diferenças, uma parceria entre a universidade e o Instituto Federal Sul-rio-grandense (IFSul) oferta aulas de português gratuitas, mas no momento o serviço precisou ser suspenso devido a pandemia.

Após os dados coletados nas mais diversas pesquisas, foi constatada a necessidade que esses grupos tinham também na questão jurídica para regularizar sua situação no país. Com isso, foi criada a Clínica de Atendimento Jurídico a Imigrantes e Refugiados, onde é ofertado esse serviço de forma gratuita. Trata-se de um projeto de extensão da UCPel que teve início no último mês. Mesmo há pouco tempo em atividade, oito pessoas vindas da Venezuela e da África já estão recebendo ajuda.

Segundo Analize Correa, coordenadora dos dois projetos, esses imigrantes possuíam uma boa situação econômica e familiar em seus países de origem, mas por causa de diversos fatores, principalmente econômico e assistencial, acabaram precisando tentar a vida em outros países. "São pessoas com experiência profissional e uma boa formação, inclusive com ensino superior, mas acabam vindo para cá e trabalhar em outras áreas para se estabelecer e se manter."

Para receber auxílio na regularização da imigração, os interessados podem entrar em contato com a clinica através do e-mail: cajir@ucpel.edu.br

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